Pelos corredores da cidade brinca o frio, e eu lembro que as estações ainda não se dissolveram; aponta suas alabardas à garganta do litoral o mar de celofane preto, e esquece-se de aquecê-lo. O céu mantém o azul literal de sempre, e o sol se faz par ímpar de todos. Mas nem frio nem mar nem céu nem sol sentem. De todo modo, espero não ter dito nada; convém gozar da incógnita que lança seu olhar de longe, o desconhecido implícito na alegria de versos nascituros.
quarta-feira, 28 de março de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Palavras embaladas a vácuo são insuficientes, derrama-se a voz por nada. Ao usá-la corretamente, o locutor escuta com nitidez a diferença que ninguém enxergaria mesmo de olhos esbugalhados - é importante esclarecer que ouvidos são tão insuficientes quanto as tais palavras, pois a audição de que falo não se importa com eles. Há aqueles que fazem uso de sua voz para recordar, alcançar, tocar, contar histórias, há inclusive aqueles que ignoram a própria voz e, por óbvia consequência, são ignorados por ela. A despeito dos que declaram derramar a voz em nome dos sonhos - o que, honestamente, poderia facilmente se encontrar em recordar e/ou alcançar -, voz e sonho são semelhantes. Sendo a voz retrato fiel mas distorcido daquilo que cada um de nós, em sua intimidade, chama de realidade, ambas se traduzem por sonho. Este não deve ser concebido como um cárcere, devemos nos propor a "atravessá-lo para encontrar a verdade além do sonho". Quanto à minha verdade, talvez contar histórias seja, afinal de contas, tanto pergunta como resposta.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Sua onda me embrulhou e partiu da enseada, rumo ao sol poente. Ela ainda navega submarina, turbilhão de espuma, e o sol não se pôs. Ao contrário, ele continua a nos banhar com fachos lanceolados, esperançoso que a noite chegue mas ciente de que não se deitará no mar tão cedo. Filho do Mar, faz as águas cálidas verdejarem, a onda que nos envolve assemelhando-se aos triunfos da costa que deixei para trás. Admiro as curvas que rareiam, as que a espuma desenha, as suas. Admito: curva nenhuma jamais foi tão linda.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
E a injeção vem por último, carneiro, e a seringa dorme rubra, e a sinusite que me faz mais pesado é a mesma que te traz alívio, e aquelas feridas que ainda se abrem espontaneamente vão enfim parar de sangrar, carneiro, e a carne que amolece na minha frente, não tenho certeza se conseguirei pensar nela como se fosse sua, e de dez em dez a gente des- em vez de, carneirinho, e o vasto que deixa pra trás devasta os que restam, e o que resta de você, Leão, é bem aquilo que nos curará, e mesmo que você tivesse sido gente, pode ser que jamais percebesse que não éramos nós que te tratávamos, e sim o contrário.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Se perguntarem aonde fui, diga-lhes que não sei, mas que não tenho intenções de voltar. Gastamos tempo demais ao léu da pior das paralisias, acorrentados a sentimentos que, pela falta de movimento, nos fazem adoecer. Não busco um lugar, busco entrar mais em contato, porque gastamos tempo demais ao léu da pior das paralisias, esquecendo por completo o que nos rodeia, esquecendo-se até de nós mesmos. Que tipo de olhar tem alguém que é invisível a si mesmo? Mais contato, por favor.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Violento; turbilhões
brancos ascendem em erupções fantasmagóricas, ao passar
da brisa, sem arranhar, ao passar pela garganta.
Erosão natural dos laços, das cordas;
acorda, de olhos entreabertos, e vê
nas pequenas coisas, como abrir a caixinha do sabonete,
na dor e outros prazeres, até mesmo
na não-loucura dos ditos loucos, que o exterior está escancarado
para quem quiser apreciá-lo
e escancarou-se antes mesmo de você
decidir romper as barras que encerravam seu peito,
pobre coração deficiente de vitamina D.
Violenta então a libertinagem dos sonhos secos
e fertiliza a própria liberdade, pouco
importando-se com aqueles que tão arrogantemente virão
questionar quem é ele para sentir-se tão livre.
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