quinta-feira, 10 de março de 2011

A gente poderia discorrer sobre uma história que vacila no concluir, ou poderia sofrer da condição de estar preso à luz de um farol distante, tão distante que nem seus olhos o vislumbrariam. O rumo seria sentido, apenas sentido. Se todo o destino estivesse contido na agulha, não haveria garantias que a bússola orientasse ao Norte. Direções e mais direções, fachos se abririam nos horizontes, os mirantes ascendendo do oceano aos montes, separados mas em uníssono. Sem saber qual lanterna atrairia o ponteiro, a embarcação lançaria a âncora à deriva e aguardaria até que os faróis decidissem por ela. Nem tornar o leme faria o relógio andar depressa. A gente poderia...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Choveu, e ainda chove.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Tenho pensado sobre sementes. Elas são e não são. Poderiam, mas às vezes se negam a germinar. Em momentos geniosos, às vezes somos nós que forçamos seu desenvolvimento, obstinados a, mesmo sem saber, criar algo que nos fará mal ou que de nada nos pertence. Elas têm mais a ver com ideias, ideais e sonhos do que qualquer outra coisa. Das coisas que não são, os seres humanos são as que tendem a elaborar uma certeza vital de que a própria existência surgiu anexada a um propósito. Nem reles nem extraordinária, ainda que possa se encaixar em ambos. Curiosamente, mais uma vez tudo depende da percepção. Não mais tão surpreendente mas definitivamente ainda mais curioso é que, ao menos a mim, essa tal existência se construiu com tamanha complexidade que por vezes me sinto a criaturinha mais insignificante e sou tomado pela convicção de que tudo isso não vale nada, e, em contrapartida, por vezes assimilo os fatos com a tão desejada simplicidade. Cada segundo à sua maneira humilde. Dia por dia. O presente eterno, um breve adeus às náuseas da hostilidade, efemeridade. Por somente um instante, um instante apenas, paro para refletir sobre a improbabilidade de o meu existir. Sorte? Acaso? Uma absurda torrente de coincidências que me trouxe até aqui, isso sim! (Que te trouxe até aqui também, não se esqueça.) E a realidade continua a ser moldada pela nossa imaginação. Eu crio a minha, você cria a sua, assim por diante, até que juntos todos nós criamos e disso se inventa o resto. Eu crio a mim, você cria a você. Agora, se vierem me perguntar dos outros... Se ninguém pensou nisso até agora... pode ser que eles não façam parte das coisas que não são. Pode ser que eles sejam.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Só há pouco tempo descobri que ao invés de insistir em esquecê-las, evitá-las, ignorá-las, deixá-las se apagarem como um déjà vu de uma faísca mal incendiada, abortada e desbotada, devemos realçar as recordações, revivê-las e até mesmo reimaginá-las em uma grande moldura de cristal em que tudo o que se vê além do véu translúcido não passa de um reino de casualidades: um todo líquido em que passado, presente e futuro se reencontram.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

É algo sobre a ausência de algo, ou talvez seja uma ausência de mim mesmo. Não importa muito e nem estou muito interessado. É assim, e simplesmente continuará sendo por todos os tempos em que estiver a sós contigo, comigo, ou com os sóis que ardem aqui no íntimo. Ah, como ardem! Iluminam, claro, mas nem toda luz é bem vinda. Tempos de escuridão são tão relevantes quanto os outros, ora pois! E na verdade pode ser que seja sobre a dor, e não sobre a ausência, e a questão principal da dor é que ela vem e não há escapatória. O importante é saber que o sofrimento é opcional. Mas, céus, como tem gente que gosta de sofrer! Sofrer por tudo, sofrer por nada, por todos e ao mesmo tempo por ninguém. Por quê? Não pergunte pra mim que eu não faço a menor idéia! Sentir aquelas pontadas de melancolia é até gostoso, só que tem um limite. Bom, pra mim tem. É até reconfortante saber que quase ninguém vem ler esses textinhos, porque no fundo o propósito agora é justamente esse: lançar as palavras apenas pelo prazer de fazê-lo. E falando em lançar, deu uma vontade de ligar pros amigos e marcar alguma coisa. Sabe, lançar a sorte junto aos outros? Mas espera um pouquinho... Isso tudo não tinha começado com solidão?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Então Runconis e Victória assumiram um aspecto fluido e cintilante como o ouro. Lançaram últimos olhares em direção aos colegas defensores, quase todos pregados ao solo com o luto que se apoderava de suas entranhas. Através do coração de nuvens do Monte Ararat, dardejaram em direção aos céus. Como dois lampejos que se afastam do próprio lar, ambos foram ao encontro do desconhecido, perdendo-se na imensidão de estrelas que se mostrava à frente.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Havia a Terra, e ela criou um Céu estrelado. Era uma réplica sólida, firme como ela e do mesmo tamanho. Você é o Solo e eu sou o Céu, ou vice-versa. Você me dá piso e me sustenta nas horas em que o peso é insuportável. O Céu e a Terra formam dois planos do universo que se colocam um sobre o outro, um domo e um chão que se cobrem por completo. Quero que cada porção do teu solo seja duplicada por um pedaço do meu céu e creio que eles se corresponderão perfeitamente.

Foi o Outono quem te trouxe, e por isso serei eternamente grato. O príncipe se torna rei do mesmo modo que galhos transformam-se em verdadeiros arranjos harmônicos. Nessa experiência de como o destino pode unir dois seres, sinto-me impelido a construir uma Realeza contigo. Se pudesse, partiria uma coroa ao meio e a dividiria com você - e somente com você.
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