segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ruptura.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O vento balança a saia da copa das árvores e a água se lança feito línguas ardentes numa tentativa já fracassada de lamber o tronco das tais árvores, em busca de um instante qualquer, final, carnal. Pois as ondas não as alcançarão e, inevitavelmente, vão desfalecer sobre o asfalto, onde, inquestionavelmente, serão levadas embora pelo mesmo vento que um dia as encorajou a alcançar o outro lado. Derramar-se me soa sensato: reconhecer que a gente não passa de um feixe de luz mergulhando, sem pressa nem propósito, no azeite. Pois não basta seguir no sentido contrário, muito menos se apressar. Pode ser, aliás, que nada baste, nem mesmo uma escolha sensata. Ignorasse a estridente mudez rotineira, estaria livre do estado ao qual recuamos – aqui, recuar não teria o sentido habitual de voltar para trás; não se contraporia a avançar, apenas significaria retornar ao começo, apenas retornar ao centro, que é, afinal, de onde partimos e de onde jamais partimos.

terça-feira, 17 de julho de 2012

não há trégua.
permaneço.
e é bastante difícil, hoje, continuar acreditando naquelas verdades;
difícil saber se alguma vez as certezas não passaram de dizeres convenientes.
mas até que ponto não vale a pena mentir para si mesmo?
aqui ou ali, tanto faz, o mar se passa por gêmeo do céu, e as ondas não se levantam mais e a monotonia azul me apaga e eu não sinto falta delas, das ondas.
tédio.
a ferida sem cicatriz se chama tédio, embora também responda por outros nomes.
e por conta da trégua que não vem, os dias exigem, em vez de calmaria, apenas mais turbulência e mais tempestade.
eu não atendo ao chamado que urge.
só permaneço...


permaneço.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ele é manco, tem um andar que o faz se inclinar um tanto para a esquerda - bem provável que seja canhoto e isso não passe de mera consequência de sua congênita intenção de alcançar* - de tal modo que o outro lado, o direito, forma uma vertente, ainda que imaginária, com o piso. (Cogitemos também - por que não? - que talvez queira apenas tocar o chão, por quaisquer razões que possa ter)*. Certos tipos, lamentavelmente a maioria, não veem no homem nada além do seu aspecto torto - demonstração de que a condição vale mais para eles. Na realidade, e tomemos como realidade uma possibilidade, algo corre pela vertente (aos que precisam de um incentivo verbal mais óbvio, trocar corre por verte). Que algo é este?...

...Devido às circunstâncias, sou forçado a reconhecer que o manco está plenamente ciente de seu andar e que - maldito orgulho! - não anda dessa maneira porque não é destro, mas sim para desaguar no mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

1) Seja inteiramente Fogo, vertical, por um lado capaz de ascender sem limites e expandir seu poder de criação além das amarras da imaginação, e por outro lado capaz de implodir ao fundo das próprias chamas e jamais tocá-lo. Mas não se esqueça de ser também Fogo horizontal. Saber fluir é indispensável. 2) Ressalva: nunca seja Água. Apenas seja mais como a Água. 3) Quanto à Terra, encontre-a nos detalhes, senão o risco de terminar soterrado faz-se demasiado perigoso. No entanto, a despeito do perigo, permita, de vez em quando, um irresponsável momento de flutuação pura. 4) Dispensa comentários o Ar.

sábado, 14 de abril de 2012

Francisco confrontou o astro (...) sem temor de queimar as retinas (...); como se não quisesse bem aos olhos, como se eles não lhe fizessem mais diferença alguma - quase indesejados -, feito alguém que carrega o peso de ter-se tornado cego, e agora não almeja curar-se da cegueira, mas sim libertar-se da obrigação de vê-la todos os dias.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Num retrato sem moldura, deita-se a musa. Seus cachos leitosos se desmancham devagar. Não se importam comigo o tempo, nem o cotidiano terreno. Somente ela se faz presente, o presente se faz somente nela, etérea, ignorante da própria beleza e existência, a desafiar a verticalidade, como mel desmantelando-se ao prazer dos ventos. Quem esvaece de verdade, no entanto, sou eu, tolo o suficiente para me apaixonar por uma nuvem.