terça-feira, 17 de julho de 2012

não há trégua.
permaneço.
e é bastante difícil, hoje, continuar acreditando naquelas verdades;
difícil saber se alguma vez as certezas não passaram de dizeres convenientes.
mas até que ponto não vale a pena mentir para si mesmo?
aqui ou ali, tanto faz, o mar se passa por gêmeo do céu, e as ondas não se levantam mais e a monotonia azul me apaga e eu não sinto falta delas, das ondas.
tédio.
a ferida sem cicatriz se chama tédio, embora também responda por outros nomes.
e por conta da trégua que não vem, os dias exigem, em vez de calmaria, apenas mais turbulência e mais tempestade.
eu não atendo ao chamado que urge.
só permaneço...


permaneço.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ele é manco, tem um andar que o faz se inclinar um tanto para a esquerda - bem provável que seja canhoto e isso não passe de mera consequência de sua congênita intenção de alcançar* - de tal modo que o outro lado, o direito, forma uma vertente, ainda que imaginária, com o piso. (Cogitemos também - por que não? - que talvez queira apenas tocar o chão, por quaisquer razões que possa ter)*. Certos tipos, lamentavelmente a maioria, não veem no homem nada além do seu aspecto torto - demonstração de que a condição vale mais para eles. Na realidade, e tomemos como realidade uma possibilidade, algo corre pela vertente (aos que precisam de um incentivo verbal mais óbvio, trocar corre por verte). Que algo é este?...

...Devido às circunstâncias, sou forçado a reconhecer que o manco está plenamente ciente de seu andar e que - maldito orgulho! - não anda dessa maneira porque não é destro, mas sim para desaguar no mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

1) Seja inteiramente Fogo, vertical, por um lado capaz de ascender sem limites e expandir seu poder de criação além das amarras da imaginação, e por outro lado capaz de implodir ao fundo das próprias chamas e jamais tocá-lo. Mas não se esqueça de ser também Fogo horizontal. Saber fluir é indispensável. 2) Ressalva: nunca seja Água. Apenas seja mais como a Água. 3) Quanto à Terra, encontre-a nos detalhes, senão o risco de terminar soterrado faz-se demasiado perigoso. No entanto, a despeito do perigo, permita, de vez em quando, um irresponsável momento de flutuação pura. 4) Dispensa comentários o Ar.

sábado, 14 de abril de 2012

Francisco confrontou o astro (...) sem temor de queimar as retinas (...); como se não quisesse bem aos olhos, como se eles não lhe fizessem mais diferença alguma - quase indesejados -, feito alguém que carrega o peso de ter-se tornado cego, e agora não almeja curar-se da cegueira, mas sim libertar-se da obrigação de vê-la todos os dias.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Num retrato sem moldura, deita-se a musa. Seus cachos leitosos se desmancham devagar. Não se importam comigo o tempo, nem o cotidiano terreno. Somente ela se faz presente, o presente se faz somente nela, etérea, ignorante da própria beleza e existência, a desafiar a verticalidade, como mel desmantelando-se ao prazer dos ventos. Quem esvaece de verdade, no entanto, sou eu, tolo o suficiente para me apaixonar por uma nuvem.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Pelos corredores da cidade brinca o frio, e eu lembro que as estações ainda não se dissolveram; aponta suas alabardas à garganta do litoral o mar de celofane preto, e esquece-se de aquecê-lo. O céu mantém o azul literal de sempre, e o sol se faz par ímpar de todos. Mas nem frio nem mar nem céu nem sol sentem. De todo modo, espero não ter dito nada; convém gozar da incógnita que lança seu olhar de longe, o desconhecido implícito na alegria de versos nascituros.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Labirinto.