terça-feira, 5 de junho de 2012

Ele é manco, tem um andar que o faz se inclinar um tanto para a esquerda - bem provável que seja canhoto e isso não passe de mera consequência de sua congênita intenção de alcançar* - de tal modo que o outro lado, o direito, forma uma vertente, ainda que imaginária, com o piso. (Cogitemos também - por que não? - que talvez queira apenas tocar o chão, por quaisquer razões que possa ter)*. Certos tipos, lamentavelmente a maioria, não veem no homem nada além do seu aspecto torto - demonstração de que a condição vale mais para eles. Na realidade, e tomemos como realidade uma possibilidade, algo corre pela vertente (aos que precisam de um incentivo verbal mais óbvio, trocar corre por verte). Que algo é este?...

...Devido às circunstâncias, sou forçado a reconhecer que o manco está plenamente ciente de seu andar e que - maldito orgulho! - não anda dessa maneira porque não é destro, mas sim para desaguar no mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

1) Seja inteiramente Fogo, vertical, por um lado capaz de ascender sem limites e expandir seu poder de criação além das amarras da imaginação, e por outro lado capaz de implodir ao fundo das próprias chamas e jamais tocá-lo. Mas não se esqueça de ser também Fogo horizontal. Saber fluir é indispensável. 2) Ressalva: nunca seja Água. Apenas seja mais como a Água. 3) Quanto à Terra, encontre-a nos detalhes, senão o risco de terminar soterrado faz-se demasiado perigoso. No entanto, a despeito do perigo, permita, de vez em quando, um irresponsável momento de flutuação pura. 4) Dispensa comentários o Ar.

sábado, 14 de abril de 2012

Francisco confrontou o astro (...) sem temor de queimar as retinas (...); como se não quisesse bem aos olhos, como se eles não lhe fizessem mais diferença alguma - quase indesejados -, feito alguém que carrega o peso de ter-se tornado cego, e agora não almeja curar-se da cegueira, mas sim libertar-se da obrigação de vê-la todos os dias.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Num retrato sem moldura, deita-se a musa. Seus cachos leitosos se desmancham devagar. Não se importam comigo o tempo, nem o cotidiano terreno. Somente ela se faz presente, o presente se faz somente nela, etérea, ignorante da própria beleza e existência, a desafiar a verticalidade, como mel desmantelando-se ao prazer dos ventos. Quem esvaece de verdade, no entanto, sou eu, tolo o suficiente para me apaixonar por uma nuvem.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Pelos corredores da cidade brinca o frio, e eu lembro que as estações ainda não se dissolveram; aponta suas alabardas à garganta do litoral o mar de celofane preto, e esquece-se de aquecê-lo. O céu mantém o azul literal de sempre, e o sol se faz par ímpar de todos. Mas nem frio nem mar nem céu nem sol sentem. De todo modo, espero não ter dito nada; convém gozar da incógnita que lança seu olhar de longe, o desconhecido implícito na alegria de versos nascituros.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Labirinto.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Palavras embaladas a vácuo são insuficientes, derrama-se a voz por nada. Ao usá-la corretamente, o locutor escuta com nitidez a diferença que ninguém enxergaria mesmo de olhos esbugalhados - é importante esclarecer que ouvidos são tão insuficientes quanto as tais palavras, pois a audição de que falo não se importa com eles. Há aqueles que fazem uso de sua voz para recordar, alcançar, tocar, contar histórias, há inclusive aqueles que ignoram a própria voz e, por óbvia consequência, são ignorados por ela. A despeito dos que declaram derramar a voz em nome dos sonhos - o que, honestamente, poderia facilmente se encontrar em recordar e/ou alcançar -, voz e sonho são semelhantes. Sendo a voz retrato fiel mas distorcido daquilo que cada um de nós, em sua intimidade, chama de realidade, ambas se traduzem por sonho. Este não deve ser concebido como um cárcere, devemos nos propor a "atravessá-lo para encontrar a verdade além do sonho". Quanto à minha verdade, talvez contar histórias seja, afinal de contas, tanto pergunta como resposta.