Francisco confrontou o astro (...) sem temor de queimar as retinas (...); como se não quisesse bem aos olhos, como se eles não lhe fizessem mais diferença alguma - quase indesejados -, feito alguém que carrega o peso de ter-se tornado cego, e agora não almeja curar-se da cegueira, mas sim libertar-se da obrigação de vê-la todos os dias.
sábado, 14 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Num retrato sem moldura, deita-se a musa. Seus cachos leitosos se desmancham devagar. Não se importam comigo o tempo, nem o cotidiano terreno. Somente ela se faz presente, o presente se faz somente nela, etérea, ignorante da própria beleza e existência, a desafiar a verticalidade, como mel desmantelando-se ao prazer dos ventos. Quem esvaece de verdade, no entanto, sou eu, tolo o suficiente para me apaixonar por uma nuvem.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Pelos corredores da cidade brinca o frio, e eu lembro que as estações ainda não se dissolveram; aponta suas alabardas à garganta do litoral o mar de celofane preto, e esquece-se de aquecê-lo. O céu mantém o azul literal de sempre, e o sol se faz par ímpar de todos. Mas nem frio nem mar nem céu nem sol sentem. De todo modo, espero não ter dito nada; convém gozar da incógnita que lança seu olhar de longe, o desconhecido implícito na alegria de versos nascituros.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Palavras embaladas a vácuo são insuficientes, derrama-se a voz por nada. Ao usá-la corretamente, o locutor escuta com nitidez a diferença que ninguém enxergaria mesmo de olhos esbugalhados - é importante esclarecer que ouvidos são tão insuficientes quanto as tais palavras, pois a audição de que falo não se importa com eles. Há aqueles que fazem uso de sua voz para recordar, alcançar, tocar, contar histórias, há inclusive aqueles que ignoram a própria voz e, por óbvia consequência, são ignorados por ela. A despeito dos que declaram derramar a voz em nome dos sonhos - o que, honestamente, poderia facilmente se encontrar em recordar e/ou alcançar -, voz e sonho são semelhantes. Sendo a voz retrato fiel mas distorcido daquilo que cada um de nós, em sua intimidade, chama de realidade, ambas se traduzem por sonho. Este não deve ser concebido como um cárcere, devemos nos propor a "atravessá-lo para encontrar a verdade além do sonho". Quanto à minha verdade, talvez contar histórias seja, afinal de contas, tanto pergunta como resposta.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Sua onda me embrulhou e partiu da enseada, rumo ao sol poente. Ela ainda navega submarina, turbilhão de espuma, e o sol não se pôs. Ao contrário, ele continua a nos banhar com fachos lanceolados, esperançoso que a noite chegue mas ciente de que não se deitará no mar tão cedo. Filho do Mar, faz as águas cálidas verdejarem, a onda que nos envolve assemelhando-se aos triunfos da costa que deixei para trás. Admiro as curvas que rareiam, as que a espuma desenha, as suas. Admito: curva nenhuma jamais foi tão linda.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
E a injeção vem por último, carneiro, e a seringa dorme rubra, e a sinusite que me faz mais pesado é a mesma que te traz alívio, e aquelas feridas que ainda se abrem espontaneamente vão enfim parar de sangrar, carneiro, e a carne que amolece na minha frente, não tenho certeza se conseguirei pensar nela como se fosse sua, e de dez em dez a gente des- em vez de, carneirinho, e o vasto que deixa pra trás devasta os que restam, e o que resta de você, Leão, é bem aquilo que nos curará, e mesmo que você tivesse sido gente, pode ser que jamais percebesse que não éramos nós que te tratávamos, e sim o contrário.
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