quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Disse, há cerca de um sol, que as palavras me pareciam insuficientes. A gente tem, também, nossas translações. Me pego de novo com aquela ideia de que as palavras, agora, não falam; eu as empunho aqui só pra demonstrar, entende? Em pessoa talvez fosse melhor mas tenho, incontestavelmente (você concorda), um jeito estranho e ao avesso de me expressar. Elas podem ser úteis... foi com elas que elogiei as tuas curvas e falei do embalo da nossa onda, e a onda ainda gira, gira não por hábito ou repetição do que poderia já ter-se tornado conveniente; não acredito que um giro tão violento e estimulante se mantenha por mera rotina. Não quero falar de amor e você sabe o porquê: aquele papo das palavras. Mas queria, se é possível, renovar o que, para mim, me fascina e é sempre fresco; queria, e possível  é, rugir e te dar a lua novamente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Gosto do entardecer visto pela janela do banheiro. De ser lembrado. Mergulhar, de ressaca, no mar. Acordar, abrir a persiana e sofrer de cegueira momentânea. Gozar. Chorar. Gosto do que me faz mal e do que me faz bem, do que me dá prazer e do que me traz dor – há na dor também um tanto de prazer. De esquecer. Sentar, sozinho, na areia. Gozar. Rir. De gosto ruim não gosto – não costumo gostar. (Minto.) Partir gosto, dividir não gosto, ir sem ninguém gosto, acompanhado gosto igual, não gostar gosto, mas pode ser difícil gostar de gostar – ou gostar do que se gosta. Gosta? gosto Mesmo? às vezes Então, sim ou não? sim e não, ou não e sim, se assim preferir E o que acha? de? Isto ou aquilo, este ou aquele, o que preferir, não? isto, este É? aquilo, aquele É? sim, tudo Quanto? um tanto de tudo

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ruptura.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O vento balança a saia da copa das árvores e a água se lança feito línguas ardentes numa tentativa já fracassada de lamber o tronco das tais árvores, em busca de um instante qualquer, final, carnal. Pois as ondas não as alcançarão e, inevitavelmente, vão desfalecer sobre o asfalto, onde, inquestionavelmente, serão levadas embora pelo mesmo vento que um dia as encorajou a alcançar o outro lado. Derramar-se me soa sensato: reconhecer que a gente não passa de um feixe de luz mergulhando, sem pressa nem propósito, no azeite. Pois não basta seguir no sentido contrário, muito menos se apressar. Pode ser, aliás, que nada baste, nem mesmo uma escolha sensata. Ignorasse a estridente mudez rotineira, estaria livre do estado ao qual recuamos – aqui, recuar não teria o sentido habitual de voltar para trás; não se contraporia a avançar, apenas significaria retornar ao começo, apenas retornar ao centro, que é, afinal, de onde partimos e de onde jamais partimos.

terça-feira, 17 de julho de 2012

não há trégua.
permaneço.
e é bastante difícil, hoje, continuar acreditando naquelas verdades;
difícil saber se alguma vez as certezas não passaram de dizeres convenientes.
mas até que ponto não vale a pena mentir para si mesmo?
aqui ou ali, tanto faz, o mar se passa por gêmeo do céu, e as ondas não se levantam mais e a monotonia azul me apaga e eu não sinto falta delas, das ondas.
tédio.
a ferida sem cicatriz se chama tédio, embora também responda por outros nomes.
e por conta da trégua que não vem, os dias exigem, em vez de calmaria, apenas mais turbulência e mais tempestade.
eu não atendo ao chamado que urge.
só permaneço...


permaneço.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ele é manco, tem um andar que o faz se inclinar um tanto para a esquerda - bem provável que seja canhoto e isso não passe de mera consequência de sua congênita intenção de alcançar* - de tal modo que o outro lado, o direito, forma uma vertente, ainda que imaginária, com o piso. (Cogitemos também - por que não? - que talvez queira apenas tocar o chão, por quaisquer razões que possa ter)*. Certos tipos, lamentavelmente a maioria, não veem no homem nada além do seu aspecto torto - demonstração de que a condição vale mais para eles. Na realidade, e tomemos como realidade uma possibilidade, algo corre pela vertente (aos que precisam de um incentivo verbal mais óbvio, trocar corre por verte). Que algo é este?...

...Devido às circunstâncias, sou forçado a reconhecer que o manco está plenamente ciente de seu andar e que - maldito orgulho! - não anda dessa maneira porque não é destro, mas sim para desaguar no mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

1) Seja inteiramente Fogo, vertical, por um lado capaz de ascender sem limites e expandir seu poder de criação além das amarras da imaginação, e por outro lado capaz de implodir ao fundo das próprias chamas e jamais tocá-lo. Mas não se esqueça de ser também Fogo horizontal. Saber fluir é indispensável. 2) Ressalva: nunca seja Água. Apenas seja mais como a Água. 3) Quanto à Terra, encontre-a nos detalhes, senão o risco de terminar soterrado faz-se demasiado perigoso. No entanto, a despeito do perigo, permita, de vez em quando, um irresponsável momento de flutuação pura. 4) Dispensa comentários o Ar.