quarta-feira, 10 de agosto de 2011


Lembra do nevoeiro?

domingo, 7 de agosto de 2011

Dourado. Primeiro, o oceano de ouro que borbulhava pelo corpo inteiro, alimentando as células. Quer dizer, borbulha. É infinito, como uma espécie de mar subterrâneo que se estende de horizonte a horizonte, e o infinito reluz à incandescência de si mesmo. Infinito como o universo. Em segundo, a corrente de faíscas. Ela mostra o caminho. Não sei por que demorei tanto para compreender a semelhança, o parentesco. Não é uma coincidência. Flui de um para outro, continuamente, em expansão, sem fim, nunca um fim.
Está em mim, mais vivo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Estar vivo como um leão na alma do deserto - arder ao estalar de qualquer faísca, mas saber para onde lançar o fogo -, pois ele, felino e solar, distingue bem as coisas que crepitam das que são meramente consumidas, as que tentam das que desistem, as que dançam das que tropeçam, as que amam das que não sabem amar. O mundo é dividido em dois tipos de pessoa: existem as que vivem na realidade, e aquelas que se atrevem a derretê-la para entortá-la, moldá-la. Ser humano é comover - mesmo que custe a pele às feridas, a carne à deriva - e isto é para os que percebem o movimento. Não é por nada que comover se escreve assim.

domingo, 17 de julho de 2011


Uma vela boiava solitariamente por entre as ondas, coberta de trevas. O véu tempestuoso rasgava os céus em dois ou quatro ou quatrocentos pedaços de noite. Relâmpago. A despeito da má sorte, a vela continuava acesa. Não tinha escolha. Relâmpago. Maré alta; a praia já vacilava desaparecer no horizonte como uma linha acinzentada. E a vela acesa. Relâmpago. Mas nem os prantos da tormenta extinguiriam o fogo. Ardia inflamado pela valentia, obstinado. Embora ele e a vela soubessem muito bem que não se comparavam a nenhum farol, jamais desistiriam. Relâmpago. Continuariam acesos, iluminando, aquecendo, tentando, tentando e tentando afugentar a escuridão. Porque como tão bem sabiam de seu tamanho, sabiam bem demais qual era seu valor.


Que as palavras sejam velas ao mar.

Que vençam a noite.

Que, enfim, cantem de triunfo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Então se fez o silêncio.
– ...
E as formas que antes entrevia, agora ele enxergava completamente. Não com os olhos propriamente ditos; não com estes globos que ainda carregava no rosto, espremendo-lhe o nariz. Dispensáveis. Mas sim com os olhos, os que recém descobrira ter. Bastavam-lhe.

domingo, 10 de julho de 2011

Sinto a vida pelo que penso ser o mais sensato, através da imaginação. Enfim fiz as pazes comigo mesmo, com o caos aqui dentro, com as probabilidades dementes. Razão e paixão se unificaram; é preciso saber por inteiro. A dor, não, não mais, porque nem ela me impede de admirar até mesmo nas madrugadas chuvosas e entregues à própria sorte o reflexo do sorriso que guardo a sete chaves. Eu aprendi a não dar de mão beijada tudo que tenho de bom. Sim, não só é preciso saber por inteiro como também é preciso dividir o intacto, e mantê-lo assim. Compartilhar sem perder. Por um momento, admito, gozar de algo tão sinistro como a dor me pareceu indiferença, como se o sentido tivesse se perdido ao longo das noites e nada mais fosse capaz de extrair qualquer tipo de sentimento de mim. Mas o erro está no verbo; sentimento não se extrai. Aqui dentro o sentimento se manifesta, flui e cria. E há consequências. Se é um passo que me aproxima do miolo, o mesmo passo me afasta do ruído estrangeiro. Não reclamo. Tudo para não ser um forasteiro da minha terra. Pois afinal, gente-fogo ou gente-água, fogo de água ou água de fogo, reconhecer a diferença entre a cachoeira e o lago é fundamental, ainda que ambos sejam transparentes.